quinta-feira, 19 de junho de 2008

Vida escolar - parte I


Vivi nesta fazenda com os meus pais e irmão até à altura de irmos para a escola, tinha então 6 anos. O meu pai pediu transferência para outra fazenda, a Kussava, também ela de gado, a 6 Km de Nova Lisboa.


Aqui iniciei uma nova fase da minha vida, um pouco complicada, pois nã

o estava habituada à vida de uma cidade, só lá ia uma vez por mês, dormia uma noite num hotel e regressava à fazenda.


Já não ia a caçadas, nem para os kimbos brincar com os “ pretinhos” ia para escola… aprender a ler e a escrever. Mas como em tudo na minha vida, depressa me habituei.


E assim vivi em Angola até Agosto de 1975, ia a caminho dos 9 anos, quando
aquela horrível guerra nos obrigou a vir para Portugal. Deixei tudo para trás, só veio comigo um pequeno saquinho com as minhas recordações. Mas como alguém disse….

Quem conhece estes lugares, reconhecerá de imediato a sua terra vermelha, os seus céus de um azul incrível, pincelado de nuvens brancas em forma de cúmulos, cúmulos-nimbos… (não vou enumerar todos os tipos… conhecem-nas de cor quem por lá passa ou passou…) … ou, então, apresentam-se num cinza quase negro e quase sempre acompanhadas de raios e coriscos, ameaçando a chuva que vai cair, e que logo cai, e logo após – tão depressa!... -, Aliviando para cinza claro e rapidamente também temos de volta o sol esplendoroso, brilhando no céu que voltou a ser azul!!!...
… e sente-se o cheiro quente da terra vermelha molhada….Recordação gravada no nosso coração… na nossa alma…


Tenho um orgulho enorme nos meus pais, pois como podem imaginar não é fácil começar uma vida nova noutro país, do zero e com três filhos pequenos.

Hoje com 41 anos, relembro com saudade esses tempos, e tenho pena, pois era um pais lindo e com uma riqueza sem fim.

Enfim, continuando a minha história... quando cheguei a Portugal fui viver para o Porto, para casa de uma irmã da minha mãe. Ficámos no Porto 8 meses. Não foi fácil acostumar-me mais uma vez, pois era tudo diferente, até o clima. Na escola, os outros meninos gozavam comigo e chamavam-me retornada, diziam que tinhamos vindo para cá para roubar o que era deles, coisas que provavelmente ouviam dos pais; as pessoas eram diferentes, os costumes eram outros, tudo para mim era diferente.

Havia respeito pelo próximo e uma grande troca de experiências. Para se poder viver em sociedade há que ter um código de ética e moral, ou seja normas que regem a nossa sociedade prevendo também que quando esses valores não são cumpridos haja uma punição exemplar de acordo com toda a sociedade. Uma sociedade é formada pela família, pelo próximo, pelo amigo, pelo vizinho, pelo colega profissional.

Há quem diga que os brancos (os patrões) abusavam dos pretos (os criados), não digo que não houvesse quem o fizesse mas em termos de prestação de serviço, todos tinham respeito pelo próximo, fosse branco ou preto, mostravam disponibilidade para ensinar e aprender e demonstravam um profissionalismo invejável. Não havia ninguém que se sentisse inferior a outro, quer seja pela categoria profissional quer seja pelas origens ou pela cor da pele, pelos menos onde eu vivi fui educada pelos meus pais a ser assim.

Mas nem tudo foi mau, adorei a Televisão que nunca tinha visto… lá não havia. Mas entretanto o meu pai foi colocado no Alentejo, em Avis, entrou para o Estado, pois em Angola tirou o Curso de Regente Agrícola, e mais uma vez mudei de lugar.

De Avis também guardo boas recordações; fui para a escola, para a 4ª classe; a vila era pequena, todos se conheciam. Havia uma barragem perto onde íamos no Verão tomar banho e praticar desportos náuticos.

Gostava muito de praticar squif e houve um ano em que fui campeã. Nas férias escolares fui trabalhar a ceifar, uma coisa que não é nada fácil, pois o calor é enorme e pegar numa foice e cortar o trigo tem a sua arte; mas lá me ajeitei durante uns tempos. Ceifava o trigo e juntava em medas para serem atadas pelos homens e carregadas nas camionetas. Foi engraçado.

Com 11 anos vim morar para as Caldas da Rainha, onde continuei a estudar; já estava no 1º ciclo, mas aqui já era uma adolescente, gostava de sair com as amigas, de festas, de discotecas, de namorar, de tudo o que uma adolescente faz. Estudei até ao 7º ano, mas depois resolvi que queria trabalhar, apesar dos esforços dos meus pais para evitarem que fizesse uma asneira, (da qual mais tarde me arrependi … e muito), levei a minha avante… e fui procurar trabalho, pensando eu ser já uma pessoa adulta.

Depressa me apercebi que a vida dos adultos afinal não era fácil, fui para a apanha da fruta durante uns tempos, tinha que trepar às árvores e encher os baldes com fruta, neste caso de maçãs para serem despejadas nos palotes, mas foi um trabalho sazonal.

Entre à noite, no ensino normal; arranjei um trabalho de dia numa mercearia pequena de bairro, onde atendia os clientes, repunha a mercadoria nas prateleiras, fazia a limpeza, um pouco de tudo...

Até que um dia conheci o que é hoje o meu marido, Angolano também, que tinha vindo às Caldas fazer o Curso de Sargentos para ser militar de carreira.

Namorámos 3 anos e resolvemos casar…foi um casamento simples só com família mais chegada; não casei nas Caldas, fui casar em Santiago do Cacém que é a terra dos pais do meu marido. Aqui começou mais uma nova etapa da minha vida, já não era aquela adolescente inconsciente, agora era uma mulher casada e com maiores responsabilidades.

Tomei conhecimento desde logo de uma vida a dois, que não seria difícil se partíssemos de um princípio que seria existir entre nós o respeito mútuo, que evitaríamos sempre aquilo que ouvíamos e líamos em relação aos outros casais como violência, adultério, etc.

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