Aqui iniciei uma nova fase da minha vida, um pouco complicada, pois nã
Já não ia a caçadas, nem para os kimbos brincar com os “ pretinhos” ia para escola… aprender a ler e a escrever. Mas como em tudo na minha vida, depressa me habituei.
E assim vivi em Angola até Agosto de 1975, ia a caminho dos 9 anos, quando aquela horrível guerra nos obrigou a vir para Portugal. Deixei tudo para trás, só veio comigo um pequeno saquinho com as minhas recordações. Mas como alguém disse….
Quem conhece estes lugares, reconhecerá de imediato a sua terra vermelha, os seus céus de um azul incrível, pincelado de nuvens brancas em forma de cúmulos, cúmulos-nimbos… (não vou enumerar todos os tipos… conhecem-nas de cor quem por lá passa ou passou…) … ou, então, apresentam-se num cinza quase negro e quase sempre acompanhadas de raios e coriscos, ameaçando a chuva que vai cair, e que logo cai, e logo após – tão depressa!... -, Aliviando para cinza claro e rapidamente também temos de volta o sol esplendoroso, brilhando no céu que voltou a ser azul!!!...
… e sente-se o cheiro quente da terra vermelha molhada….Recordação gravada no nosso coração… na nossa alma…
Tenho um orgulho enorme nos meus pais, pois como podem imaginar não é fácil começar uma vida nova noutro país, do zero e com três filhos pequenos.
Havia respeito pelo próximo e uma grande troca de experiências. Para se poder viver em sociedade há que ter um código de ética e moral, ou seja normas que regem a nossa sociedade prevendo também que quando esses valores não são cumpridos haja uma punição exemplar de acordo com toda a sociedade. Uma sociedade é formada pela família, pelo próximo, pelo amigo, pelo vizinho, pelo colega profissional.
Há quem diga que os brancos (os patrões) abusavam dos pretos (os criados), não digo que não houvesse quem o fizesse mas em termos de prestação de serviço, todos tinham respeito pelo próximo, fosse branco ou preto, mostravam disponibilidade para ensinar e aprender e demonstravam um profissionalismo invejável. Não havia ninguém que se sentisse inferior a outro, quer seja pela categoria profissional quer seja pelas origens ou pela cor da pele, pelos menos onde eu vivi fui educada pelos meus pais a ser assim.
De Avis também guardo boas recordações; fui para a escola, para a 4ª classe; a vila era pequena, todos se conheciam. Havia uma barragem perto onde íamos no Verão tomar banho e praticar desportos náuticos.
Gostava muito de praticar squif e houve um ano em que fui campeã. Nas férias escolares fui trabalhar a ceifar, uma coisa que não é nada fácil, pois o calor é enorme e pegar numa foice e cortar o trigo tem a sua arte; mas lá me ajeitei durante uns tempos.
Tomei conhecimento desde logo de uma vida a dois, que não seria difícil se partíssemos de um princípio que seria existir entre nós o respeito mútuo, que evitaríamos sempre aquilo que ouvíamos e líamos em relação aos outros casais como violência, adultério, etc.

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