quinta-feira, 19 de junho de 2008

História de vida (II)


Quatro anos depois no dia 3 de Novembro de 1965, à 1,00h da manhã, em Nova Lisboa,




nasceu uma menina gordinha que pesava quatro Kg. Deram-me o nome de Eugénia.

Dias depois do meu nascimento, regressámos ao Cuito, a uma fazenda de gado no meio do mato, a 300 Km de Nova Lisboa, onde os meus pais moravam.

Não era a primeira filha deles, pois um ano e meio antes tinham tido um rapaz, assim como sete anos depois tiverem outro, mas esta história não é a deles, mas sim a minha.

Vivia feliz pois Angola era um país lindo. Devido à existência de várias tribos falavam-se vários dialectos tais como o Kimbundo, o Umbundo, o Kioco, entre outros, mas como é evidente a língua oficial é o Português. Devido à orografia, o clima era diversificado, desde o tropical ao temperado, como por exemplo nos planaltos de Huila e do Huambo, onde se produziam as mesmas culturas que se produzem cá, pois as terras eram muito férteis.

De notar que a fazenda onde vivi ficava no ponto mais alto de Angola, com 2624 m; era mais alto que a Serra da Estrela, onde também se faziam sentir temperaturas muito baixas nos meses de Junho e Julho. Vivi também junto à fronteira com a Namíbia, onde me lembro de ter visto animais de grande porte como elefantes, leões, búfalos, etc.

O ambiente era puro e sustentável, a própria natureza fazia a sua renovação. Era um país que se podia dizer que ninguém morreria de fome, porque tinha uma riqueza natural e que parecia inesgotável. Mas tudo era lindo naquele país, desde as praias até às montanhas com quedas de águas fabulosas passando pelo clima.

Lembro-me também de ter todo o espaço para brincar, correr, saltar, conviver com animais. Quando o meu pai fazia caçadas costumava levar-me com ele no jeep. Tinha um bambi como animal de estimação, e um cão de que eu não gostava muito por ser mau, quando o soltavam ia ao galinheiro e matava as galinhas, não havia animal que entrasse na fazenda e saísse de lá com vida… A única pessoa que o controlava era o nosso cozinheiro Inácio.

Sempre que podia ia aos kimbos ou sanzalas,

(casas dos pretos) brincar com os pretinhos, visto que eu era a única menina branca e não tinha mais ninguém, para além do meu irmão.

Adorava andar à chuva; é que quando chovia fazia calor ao mesmo tempo. Era tanta chuva a que as estradas ficavam interrompidas e as pontes ruíam; havia alturas em que ficávamos completamente isolados de tudo. Passava o tempo a pescar, a nadar nos rios, a andar de mota com a minha mãe, a andar de jeep. Enfim coisas de crianças.

Não tínhamos médicos nem hospitais por perto a não ser em Nova Lisboa, a 300 km dali, então quando os pretinhos ficavam doentes, ou eram mordidos por uma cobra ou tinham feridas que infectavam, eram os meus pais que os ajudavam, pois tínhamos sempre vários medicamentos, inclusive vacinas, e eu gostava de ficar a ver a minha mãe a tratar deles; dava-lhes a mão para não terem medo, nem chorarem. Os partos também eram a minha mãe quem os fazia. Era frequente virem pretos de várias aldeias à nossa fazenda procurar ajuda. Não tinham informação sobre cuidados básicos de saúde nem recursos para se deslocarem a um médico, pois só nas cidades é que havia essa assistência e a cidade mais próxima ficava a 300 Km. Até a mim quando me acontecia alguma coisa, a me magoava ou ficava doente, os primeiros cuidados eram feitos pela minha mãe, com medicamentos que tinha sempre em casa e só se a situação piora-se é que ia á cidade ao médico.

Uma vez por mês iamos à cidade, a Nova Lisboa, fazer as compras do mês, de comida, medicamentos, roupas, enfim vária coisas, e nessa altura aproveitavamos para passear e ir ao cinema, o que para mim era uma alegria.

Enfim, são pequenas lembranças, visto ter pouca idade.

Para além de ter uma infância feliz de que me lembro perfeitamente, também me lembro um pouco da riqueza que havia naquele país, em termos de cultura e de costumes, devido à grande variedade de etnias existentes.

Havia respeito pelo próximo e uma grande troca de experiências. Para se poder viver em sociedade há que ter um código de ética e moral, ou seja normas que regem a nossa sociedade prevendo também que quando esses valores não são cumpridos haja uma punição exemplar de acordo com toda a sociedade. Uma sociedade é formada pela família, pelo próximo, pelo amigo, pelo vizinho, pelo colega profissional.

Há quem diga que os brancos (os patrões) abusavam dos pretos (os criados), não digo que não houvesse quem o fizesse mas em termos de prestação de serviço, todos tinham respeito pelo próximo, fosse branco ou preto, mostravam disponibilidade para ensinar e aprender e demonstravam um profissionalismo invejável. Não havia ninguém que se sentisse inferior a outro, quer seja pela categoria profissional quer seja pelas origens ou pela cor da pele, pelos menos onde eu vivi fui educada pelos meus pais a ser assim. Como não havia televisão, as pessoas juntavam-se muito e faziam grandes festas, grandes caçadas, pescarias no rio Cunene onde o peixe abundava, e tudo servia para um bom convívio.

Os pretos também tinham as suas festas; os ximganjes, por exemplo eram pretos que se vestiam com trajes feitos de ráfia, com missangas, besuntavam-se com óleos que por vezes cheiravam mal e dançavam à volta das fogueiras.

Gostava de retratar um pouco com algumas fotografias para terem uma pequena ideia do que estou a dizer.

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