segunda-feira, 7 de julho de 2008

BALANÇO FINAL-CRVCC

BALANÇO FINAL- CRVCC

Chegou o momento do balanço final.
Ao iniciar este projecto, o meu objectivo sempre foi chegar ao fim e com sucesso.

Consciente, desde o início, de que não iria ser uma tarefa nada fácil, fui constatando esse facto ao longo deste processo e algumas vezes vacilei e cheguei a pensar em desistir.

Tendo este processo uma metodologia presencial e à distância, foram muitas as horas que tive que despender para a conclusão de todos os temas propostos. Não foi muito fácil conciliar a vida profissional, familiar com o processo de RVCC. Mas, foi muito positivo. Os temas tratados no referencial obrigaram-me a uma reflexão sobre mim própria e sobre toda a minha vida, dando importância a certos pormenores que até aqui quase me passaram despercebidos.

Com a necessidade da construção de um portefólio, fui obrigada a ter acesso a outros conhecimentos e para isso dediquei algum tempo à descoberta e pesquisa dos mesmos. Fiquei mais rica.

Este projecto foi o responsável pela minha evolução e contribuiu para novas aprendizagens. Ao pesquisar e ao elaborar os temas de certo aprendi algo mais. Não posso deixar de apontar alguns pontos tanto negativos como positivos. Posso começar pelas expectativas que inicialmente tinha e posso dizer que foram bem diferentes das que constatei ao longo de todo o processo; pensei que seria mais fácil, até porque acompanhei e trabalhei na retaguarda de um processo de RVCC de nível básico, na entidade onde trabalhava anteriormente. O grau de exigência, como é normal, não é tão alto. Uma das dificuldades que encontrei foi fazer a ligação entre a minha história de vida e os trabalhos realizados para evidenciar as minhas competências. Foi um erro meu não ter dado tanta importância à minha história de vida e ter-me preocupado mais em concluir todos os temas que eram solicitados. Outra dificuldade que tive mas que consegui superar com um certo esforço foi o facto de não ter muitas habilitações escolares; só tenho o 7º ano de escolaridade, mas com dedicação e ajuda ultrapassei essa barreira e é uma prova nítida, na minha maneira de ver, que só não consegue obter o que quer quem não se esforça.

Não posso deixar de referir, mais uma vez, todo o trabalho realizado pela equipa que me acompanhou. E o facto de terem apostado nas minhas capacidades. Desde o início deste processo eu sempre disse que nós adultos e os profissionais envolvidos seriamos as cobaias, pois todos andávamos à descoberta da melhor forma para chegarmos ao fim. Na minha opinião o facto de iniciarmos pela nossa história de vida sem termos a mínima noção de quais serão os temas que temos de tratar dificulta o trabalho final que é fazer a ligação das duas coisas, se fosse agora procedíamos precisamente ao contrário, ou seja, estudávamos os referenciais e só depois elaborávamos a história de vida e trabalhava os temas.
Mas nem tudo são pontos negativos, pois gostei muito de trabalhar dois temas: o da Gestão e Economia, porque está ligado à minha vida profissional logo encontrei algumas facilidades pois é um tema que posso dizer que domino e o dos Saberes Fundamentais, onde tratei o tema da “Violência Doméstica”, porque é um tema que me toca profundamente por ser uma realidade dos nossos dias e muitas vezes passa-se mesmo ao nosso lado e revolta-me imenso pensar que alguém ache que tenha tanto poder sobre outro ser humano.

Outra coisa que gostei de fazer foi o meu Blogue, (que aliás tenho de agradecer à professora Cibele a ideia e a ajuda preciosa que me deu na elaboração deste trabalho final). Vou deixá-lo em aberto porque penso que poderá ser de uma grande ajuda para outros adultos que iniciem o processo de RVCC.

Gostava de poder continua a estudar mais, ir mais longe, quem sabe tirar um curso superior em Contabilidade, pois agora com o 12º ano feito já é meio caminho andado. O facto de termos de evidenciar competências numa língua estrangeira, deixou-me entusiasmada para progredir mais e estou a pensar em fazer um curso de Inglês, provavelmente agora no Verão. Apercebi-me como é importante, quer a nível profissional quer a nível pessoal sabermos falar uma língua estrangeira.

Em conclusão, sinto que este projecto é uma vitória, quer por ter chegado ao fim, quer pelo que aprendi de novo e que contribuiu de certa maneira para a minha valorização pessoal. Também descobri que sabia coisas que não sabia que sabia.

O convívio com os outros adultos foi espectacular, mas devo salientar mais uma vez a importância de toda a equipa de profissionais que me acompanhou e outros com quem não tive contacto, mas que estiveram de alguma forma envolvidos. A todos o meu muito obrigado. Votos sinceros de futuras vitórias a todos os níveis.
Eugénia Bettencourt

Grupo I-1

quinta-feira, 19 de junho de 2008

A minha família



FAMÍLIA EGYDO

Este é o meu filho Ruben, tem hoje dezoito anos e está a terminar o 12º ano (Matemática). Quer entrar para a Academia Militar e tirar Arquitectura. Para o ano…. lá vai ele.

Esta é a minha filha Joana que tem 5 anos e entrou este ano para a Primária. Não, não quer ser militar, diz que vai ser Veterinária… vamos ver!!!

Este é o meu marido Zé, tem 42 anos, já terminou os estudos há muito tempo e só quer ser militar.

História de vida (V)

Em 2001 nasceu a minha filha Joana; foi um ar fresco na minha vida e mais uma experiência linda, é que já tinham passados 12 anos desde o nascimento do meu filho, e a ideia de ter um bebé era óptima,o que desde logo nos fez começar a pensar numa casa maior pois a família aumentou e o espaço era pouco.

A minha primeira casa era alugada, era muito pequena, tinha um quarto, uma sala, uma cozinha e uma casa de banho, também não precisava de mais, pois éramos só duas pessoas, eu e o meu marido. Era pequena, mas confortável.

Ficava nos arredores das Caldas, mais precisamente no Coto. Era a única coisa má, devido à falta de transportes. Passados dois anos, decidi comprar uma casa, pois achei que, entre pagar uma renda a vida toda e a casa nunca ser minha e pagar um empréstimo era melhor a última opção. Então comecei um longo caminho com todo o processo da compra de uma casa.

Passei a viver num apartamento um pouco maior, tinha dois quartos, casa de banho completa e outra mais pequena, uma sala, uma cozinha, uma marquise e uma dispensa, sentia em relação à outra que era bem maior e estava situada no centro das Caldas, o que facilitou a minha vida em todos os sentidos: trabalho, médicos, supermercados, farmácias, etc., tudo estava perto. Esta mudança deveu-se ao facto de eu ter engravidado e precisar de mais um quarto para o futuro membro da família.

Vivi nessa casa durante 12 anos, ao fim desse tempo e como a vida não pára, vinha mais um bebé a caminho, então dois quartos era pouco, precisava de mais um e de mais espaço. Decidi então mudar e comprar uma casa que fosse grande, espaçosa.

Hoje tenho uma casa com quatro quartos sendo um deles com casa de banho privativa, uma sala enorme, uma cozinha grande, uma marquise, uma dispensa, sótão com entrada independente, garagem, enfim é grande.

A casa que tínhamos estava um pouco degradada e decidimos comprar uma casa maior.

Já vivo lá há 6 anos e neste espaço de tempo realizei algumas obras, para tornar a casa mais confortável: tirei a alcatifa e apliquei pavimento isolante (Inverno e Verão), apliquei sanitários novos, assim como uma cozinha nova, pois a outra já estava um pouco ultrapassada e instalei janelas com vidros duplos para melhor isolar o calor, frio e sons. Mas a construção hoje em dia está muito diferente de há uns anos atrás, existem uma série de factores que provocaram essa mudança, a evolução nos materiais de construção, isolamentos, as necessidades das famílias serem outras, etc.

A partir daqui a minha vida deixou de ser tão rotineira pois tinha voltado às fraldas, aos biberões e às noites sem dormir.

Enfim, que mais posso contar? Estive catorze anos na Associação de Agricultores do Oeste, até Junho de 2007, altura em que decidi sair e mudar de ramo; agora estou numa empresa de construção civil, também a desempenhar funções de administrativa.

Mais uma vez aqui também tive de aprender a movimentar-me para poder dar resposta ao trabalho que me era solicitado; em parte dele já não tinha dificuldades pois tratava-se de emissão de facturas de compra e venda, assim como de controlo de stocks, processamento de salários. A diferença é que deixei de lidar com frutas, couves, alhos, para passar a tijolos, cimento, mosaicos, ferro, betão, etc.

Esta empresa, Salvador & Jesus, com sede na Salgueirinha, é uma empresa de Construção Civil, onde construímos para vender, e onde temos uma loja – exposição de todo o material necessário para uma casa. Aqui também me deparei com coisas novas, mas o maior desafio foi aprender a trabalhar com um novo programa de Contabilidade, Facturação e Gestão de Stocks. O Primavera, é um programa bastante complexo, muito diferente do Contaplus Profissional e que para mim era desconhecido. Mas não fiquei atrapalhada, meti mãos à obra e tratei, em primeiro lugar, de conhecer sozinha um pouco o programa; fiz algumas experiências, comecei a ver como funcionava e o resto solicitei ajuda, mais uma vez ao técnico que vendeu o programa. Agora já me movimento bem e consigo responder às necessidades da empresa.

E ao fim de tantos anos e de tantas experiências, umas boas outras menos boas, decidi mais uma vez (mas desta é de vez) completar a minha formação académica, porque aprendi, ao longo da vida, que quando uma porta se fecha abre-se logo uma janela, basta estarmos atentos e aproveitar as oportunidades que a vida nos dá.

Por isso tenho todo o interesse e empenho em terminar este processo, pois além de ficar com o 12º ano, tenho a certeza de que vai-me dar oportunidade de fazer uma reflexão exaustiva da minha vida, verificar o que realmente aprendi, como o pus em prática, como e porquê aprendi, porque fiz certas escolhas e para que me serviram ou virão a servir.

E pronto, resumidamente esta é a minha HISTÓRIA DE VIDA.

Para terminar e como não podia deixar de ser, gostava de vos apresentar a minha família da qual tenho muito orgulho.

História de vida (IV) - trabalho



Para além do trabalho diário de administrativa, do controlo contabilístico e da formação também organizava e participava em certames e feiras, como por exemplo a Feira da Pêra Rocha - Mostra de Artesanato, Doçaria e Gastronomia Regional, no Bombarral. Esta é uma feira anual.

Para organizar esta feira tive de criar uma base de dados dos expositores, começando por fazer contactos com várias empresas, com agricultores, com pessoas ligadas ao artesanato, restaurantes, colectividades, Juntas de Freguesia, Câmaras, etc, assim como com os assistentes, pois havia expositores que nos solicitavam assistentes para os pavilhões, e nós prestávamos o serviço (estes assistentes eram normalmente estudantes em férias escolares); tinha uma ficha de inscrição e juntava uma fotografia.

Fazia parte das minhas funções criar o cartaz e o programa da feira.

Tínhamos o apoio financeiro de várias entidades, com as quais tínhamos de negociar as ajudas que nos poderiam dar e em troca nós fazíamos a publicidade no cartaz. Por isso nos cartazes aparecem vários logótipos. Todo a organização deste trabalho só era possível devido diversidade de interesses e tolerância de todos os colaboradores e intervenientes.

Com a ajuda da Internet pesquisava e fazia o download de imagens, de frutas, de artesanato e de doçaria, para compor o cartaz, que depois ia para uma tipografia para ser imprimido. Fazia contactos com entidades oficiais como os Presidentes de Câmaras, entidades do Ministério da Agricultura, do Ifadap, políticos, convidando-os a estarem presentes na inauguração do evento, assim como a visitarem o certame.

Em relação ao programa da feira, tive de fazer uma pesquisa para arranjar animação. Comecei por contactar Juntas de Freguesia e Câmaras Municipais para saber se existiam ranchos folclóricos na região e que fossem só da região, visto ser um certame para divulgação da Pêra Rocha e de outra frutas, de doçaria e gastronomia regional, pelo que fazia todo o sentido serem daqui e não do Algarve, por exemplo. Também contactei com outros grupos locais de música tradicional Portuguesa, como por exemplo, a Tânia e Bailarinas, o Duo Opcção Jovem, o Mário Gil, a Banda do Caneco, o Hugo Sampaio e muitos outros. Depois fazia os contactos, marcava os dias de actuação, os fazia os preços, arranjava o transporte, solicitando apoio às Câmaras ou Juntas de Freguesia e no próprio dia acompanhava os ranchos e outros músicos durante a actuação e fornecia-lhes a alimentação.

Também era da minha responsabilidade organizar e dar assistência no bufete de inauguração.

Durante os certames, que depois do primeiro dia corriam normalmente, tinha de ter a preocupação dos recebimentos em relação a alguns expositores que pagavam o espaço e de fazer os pagamentos aos músicos.

Elaborei na organização várias Feiras da Batata - Mostra do Mundo Rural na Lourinhã, em que o processo é o mesmo, só que esta feira é mensal. Participei como expositora com pavilhões da Associação de Agricultores do Oeste, e do CAPTO-Centro de Artes e Profississões Tradicionais do Oeste, nas Expo-Regiões, em Caldas da Rainha.

Participei, como expositora, em colaboração com a Laeder Oeste, na Feira da Maçã de Alcobaça. Nestas exposições tinha de ornamentar o pavilhão da Associação de Agricultores do Oeste com motivos regionais, tais como fruta da região e artesanato, doçarias, licores, bordados, e tudo o que pudesse expor, que dissesse respeito à nossa região.

Participei como expositora com um pavilhão da Associação de Agricultores do Oeste num certame no MARL.

Em 1996, criámos a CAPTO-Cooperativa de Artes e Profissões Tradicionais do Oeste, que tem como estatuto a promoção e a comercialização de produtos tradicionais, como a doçaria, artesanato, licores e a gastronomia regional.

Em 2006, colaborei com a Associação de Agricultores do Oeste e a Laedar Oeste, na promoção e realização de um certame no Bombarral, “Sabores do Oeste”; este certame tinha também como objectivo promover os produtos regionais. Aqui também efectuei todo um trabalho desde a criação do programa, à elaboração de cartazes, à divulgação na comunicação social, tal qual como fiz na Feira da Pêra Rocha em que tinha de fazer contactos com expositores, grupos para a animação, efectuar convites a entidades oficiais, enfim um pouco de tudo mas com mais facilidade visto já ter uma boa base de dados das outras feiras.

Em 2003 e 2007, colaborei com a Associação de Agricultores do Oeste, na organização de uma Missão Empresarial ao Brasil (Fortaleza); aqui as minhas funções foram as de contactar com empresas no Brasil ligadas à agricultura, para definir juntamente com essas empresas um roteiro de visitas para podermos participar em colóquios, em reuniões com outros produtores para promover futuros contactos para possíveis exportações e importações, em marcar hotéis, viagens e contactar com vários empresários interessados em ir nesta missão, em aluguar o autocarro para a deslocação no Brasil (Fortaleza) e na elaboração de um roteiro turístico.

Participei também como colaboradora num processo de RVCC na Associação de Agricultores do Oeste onde fizemos algumas certificações até perdermos a acreditação no Inofor. Neste processo trabalhava com a Directora do Centro, com uma profissional de RVCC e com as formadoras de TIC, de Cidadania e Empregabilidade, de Matemática para a Vida e de Linguagem e Comunicação. O meu trabalho aqui incidiu mais na parte da divulgação do Centro através de cartazes publicitários a utilizar na comunicação social em geral. Criei uma ficha de inscrição para os adultos, tratei da aquisição de equipamento e material de escritório, telefones, computadores e depois tratava de toda a parte financeira visto ser um Centro subsidiado pela Câmara Municipal de Caldas da Rainha. Depois de encerrado o Centro, tratei de alguns processos de transferência de adultos para outros Centros e de alguns documentos que estavam em falta para serem enviados para a Direcção Vocacional para encerrar alguns processos pendentes.

Organizei também Jornadas Técnicas, onde as minhas funções eram as da elaboração dos cartazes, de fazer o programa do evento, de efectuar contactos com vários técnicos do Ministério da Agricultura, em fruticultura, horticultura, etc. Estas Jornadas Técnicas eram feitas com o objectivo de passar toda a informação aos nossos agricultores.

Aplicando o meu código de conduta em contexto profissional, tenho assegurado um excelente relacionamento dentro do meu departamento assim como com os restantes departamentos e colegas, procurando saber sempre se alguém precisa de ajuda quer profissional quer particularmente. Por exemplo, nos breves momentos de descanso que temos na minha empresa, até na brincadeira chamamos “ hora do café”, crio situações para que possamos brincar, conviver e até mesmo trocarmos opiniões profissionais sobre determinados problemas.Talvez porque quando vim para Portugal senti, que de certo modo, havia uma certa retaliação em relação as pessoas que, como eu, vinham de outro país, hoje respeito bastante as diferenças culturais existentes num universo tão diversificado de nacionalidades.No meu local de trabalho sou responsável directa pelo departamento administrativo. Embora nesta secção não existam diferenças de nacionalidades, todos são diferentes entre si, têm origens, culturas e formação diferentes. Tenho colegas Algarvios, Alentejanos e Nortenhos. Embora oriundos de regiões diferentes e com diferentes maneiras de estar na vida, todos eles formam uma equipa fantástica, que muito respeito e com a qual tenho o prazer de poder trabalhar. Em termos de prestação de serviço, todos têm respeito pelo próximo, mostram disponibilidade para ensinar e aprender e demonstram um profissionalismo invejável. Não há nenhum que se sinta inferior a outro, quer seja pela categoria profissional quer seja pelas origens.

E assim o tempo foi passando, entre o trabalho e a casa, … até que em 2000 o meu marido foi para Timor fazer uma comissão de 6 meses, e nessa altura não posso dizer que tenha sido uma boa experiência, estive quase um mês sem saber notícias dele; não sabia se tinha chegado, se estava bem, foi horrível. Só ao fim de um mês é que ele pode comunicar comigo, pois quando lá chegaram não tinham meios de comunicação. Foram 6 meses de angústia e saudade, até que ele voltou.

Formação

Foi a partir daqui que comecei a tentar melhorar o meu Curriculum fazendo todas as formações possíveis e que fossem úteis para o desempenho das minhas funções: de Marketing, de Tecnologias da Informação e Comunicação, de Contabilidade Agrícola, Formação de Formadores, Formação de Coordenadores, Secretariado, Distribuição Agro-Alimentar, Validação e Avaliação dos Produtos, Contabilidade e Gestão Agrícola, Comércio e Marketing Agro-Alimentares, Actualização Pedagógica de Formadores, Desenvolvimento de Competências Pessoais...

Associação de Agricultores do Oeste

Em 1995 fui trabalhar para a Associação de Agricultores do Oeste, no Bombarral, a desempenhar funções também de administrativa, graças aos três anos de experiência no Hotel Malhoa.

Aqui tive muitas experiências de vida que me satisfizeram bastante. A minha experiência era pouca no hotel, pois de computadores não percebia nada, então tive de aprender e comecei por fazer uma pequena acção de formação em Informática onde aprendi um pouco de Informática na óptica do utilizador (Microsoft Office, Excel, Internet e Correio Electrónico) aprendi a trabalhar com o fax, a fotocopiadora, o scanner, a máquina fotográfica, o data show, o retroprojector, o projector de slides enfim equipamento que era de certa maneira novo para mim, fiz pesquisas junto de pessoas que sabiam mais do que eu, consultei muitos livros, e manuais e entre uma asneira e outra fui aprendendo. Hoje domino perfeitamente as novas tecnologias de informação equipamentos e sistemas técnicos.

Tratava de toda a facturação de compras e de outros documentos para o contabilista, fazia controlo dos bancos e de caixa e criei, no Excel, um quadro de entradas e saídas a dar logo o saldo bancário em que sempre que havia uma entrada ou saída financeira tinha que ter a preocupação de ir lá lançar, ou seja, era um trabalho diário. Tínhamos também vários serviços de apoio ao agricultor. Um deles era fazer as contabilidades simplificadas, e como não percebia nada do assunto resolvi tirar um Curso de Contabilidade Agrícola onde aprendi noções de Contabilidade, de IVA, IRS, IRC, e do processamento da contabilidade de uma empresa; mais tarde tirei outro de Contabilidade e Gestão Agrícola, o que também me ajudou imenso.

Tinha um programa de contabilidade que era o Contaplus Profissional do qual eu não percebia nada, mas como sou persistente e curiosa fui "mexendo", pedi assistência técnica ao vendedor do programa, e mais uma vez venci, porque passei a trabalhar com o Contaplus Profissional com muita facilidade.

Ao deparar-me com novas situações de trabalho vi que tinha de investir em formação vista não ter formação académica. Para além deste trabalho a empresa também fazia formação agrícola e todo isso eram coisas novas para mim, era uma grande mudança na minha vida profissional e eu tinha de corresponder para ficar com o emprego, pois a concorrência era muita. Tive que aprender a lidar com várias situações por vezes complexas e arranjar forma de resolver os problemas que me surgiam, quer a nível de trabalho, quer a nível de relações com outras pessoas.

Neste hotel passei por uma situação desagradável que me marcou; ao aperceber-me que estavam a tentar fazer algo para que eu ficasse sem trabalho até culpar-me de uma situação grave, comecei a juntar provas para me poder defender se algo acontecesse.Então eis que eles conseguiram levar-me a tribunal, e aí como em português se diz “ Saiu-lhes o tiro pela culatra”, provei que era inocente e que se tinha desaparecido dinheiro não tinha sido eu, de certeza. A Ana e o director foram expulsos pela Administração do hotel.De volta ao trabalho a administração tentou recompensar-me, mas eu não aceitei uma vez que da parte deles, dos colegas que já me conheciam há muito tempo, chegaram a questionar a minha honestidade e como tal eu já não tinha nada a fazer ali, pois sentia-me completamente desmotivada, sem meios psicológicos para continuar a trabalhar. Para mim foi uma situação desagradável e que até hoje não consegui esquecer.

O meu trabalho consistia em fazer desde o projecto de formação até à execução das acções de formação. Para mim era mais uma coisa nova e tinha que acompanhar o processo pelo que consultei empresas, contactei com o próprio Ministério da Agricultura e aprendi como se faziam os projectos. Depois veio a parte em que as acções estavam a decorrer e também havia todo um processo a ser feito, como a elaboração do Dossier Técnico Pedagógico, que consistia primeiro na selecção de formandos, usando para tal os jornais locais, panfletos, rádios, etc, elaborei uma pequena ficha de inscrição e depois havia uma entrevista para ver o perfil e se tinham os requisitos necessários para a formação, alugava as salas e fazia o acompanhamento das acções em termos de apoio aos formadores, elaborava os mapas de assiduidade, fazia o controlo de faltas, dos conteúdos programáticos, folhas de sumários, fichas de identificação dos formandos e formadores, relatórios de execução final, recebia relatórios de formadores, fornecia o equipamento didáctico e áudio visual, estava presente e respondia perante uma supervisão feita por técnicos do Ministério; enfim tudo isto fazia parte do tal dossier técnico pedagógico e todo este trabalho tinha de ser feito porque havia a parte financeira onde tínhamos de fazer a ponte com o Ministério visto que estas acções eram todas financiadas.

Todo este processo era feito por uma ou um coordenador; acontece que eu não tinha a formação necessária então fui tirar um Curso de Formação de Formadores e outro de Coordenadores para então estar certificada para fazer as coordenações. Nesta formação aprendemos qual o papel do coordenador, a fazer levantamentos de necessidades de formação, metodologias da formação, dinâmicas de grupo, comportamento humano e projectos de formação profissional, a programar novas acções para o ano seguinte.

Tenho um CAP, mas nunca dei formação porque não tinha nenhuma área específica, e o que sempre gostei de fazer é a coordenação.

Para mim a coordenação é mais interessante, pois movimentamos muita coisa como já expliquei atrás. Além de convivermos com muita gente diferente onde ensinamos algo mas também, e principalmente, aprendemos muito.

Aqui posso dizer que surgiram muitos conflitos de interesses, pois é um trabalho que dá dinheiro e havia sempre uma “guerra” entre as entidades para definir quem era responsável pela formação e dividir as coordenações e as formações, pois é um projecto que envolve muito dinheiro. Tinha que ter capacidade para gerir todos estes conflitos pensando sempre em prol da minha entidade, mas sem querer fazer juízos que não me competiam, apesar de assistir a muitas injustiças.

Posso ainda dizer que como coordenadora, coordenei várias acções de formação tais como as de: Empresários Agrícolas, Segurança e Higiene do Trabalho, Doçaria e Gastronomia Regional, Floricultura, Marketing Agro-alimentar, Podas e Enxertias, Contabilidade Informatizada, Marketing e Tecnologias de Informação, Informática, Contabilidade e Gestão Agrícola, Doçaria Regional, Viticultura, Horticultura, Artesanato Regional, etc.

Trabalho

Um ano depois nasceu o meu primeiro filho, o Ruben, foi uma experiência linda e marcante, aliás como para qualquer mulher.Não foi fácil engravidar e tive problemas durante a gravidez havendo o risco de um aborto espontâneo o que para mim era impensável e inaceitável, mas tudo correu bem e nasceu o meu filho cheio de saúde, mas foi um parto difícil.

Entretanto o meu marido foi colocado em Santa Margarida onde ainda hoje está e só nos víamos ao fim-de-semana. Depois do nascimento do meu filho fui trabalhar para uma fábrica de calças no Bairro dos Arneiros; não era um trabalho de que gostasse muito, pois era rotineiro; tinha de dar produção e o meu trabalho consistia em coser os fechos das calças e os botões; trabalhei lá durante 3 anos.

Ao fim desse tempo saí e fui trabalhar para uma Clínica Veterinária, o que me agradou imenso pois assistia a doutora durante as consultas e nas operações.

Lembro-me de assistir ao parto de uma gatinha. Tinha de receber os gatinhos e de prestar-lhes assistência, soprar-lhes na boca e abaná-los até miarem, que era sinal que tinham os pulmões desobstruídos e respiravam sozinhos.

Limpava o canil todos os dias e passeava os cãezinhos que estavam no nosso hotel enquanto os donos estavam de férias.

Aqui tinha contacto, para além da patroa, também com o marido. No início não desconfiei dele, pois pensava que eram atitudes simpáticas, de pura harmonia laboral onde se trabalhava como equipa. Mas com o passar dos tempos apercebi-me que fazia algumas tentativas, ou seja, ele procurava tocar-me sem qualquer tipo de motivo; as conversas passaram a ser insinuantes, enfim, as situações eram algo desconfortáveis. No início até o admirava como colega mas depois passei a ter sentimentos de repulsa e sentia um desconforto quando ia para o trabalho e tinha de ficar sozinha com ele, pois a mulher costumava ausentar-se para tratar de assuntos. Sempre que me era possível tentava afastar-me dele, o que de certa maneira lhe criou alguma raiva e começou a ser indelicado e agressivo comigo.

Esta situação, como se pode esperar, trouxe-me alguns problemas no trabalho, pois sempre que podia ele tentava deitar-me abaixo, desfazia constantemente do meu trabalho, para ele nada estava bem. O que também começou a afectar o meu relacionamento com a esposa, que também era minha patroa, mas que não suspeitava de nada, para ela eram simples problemas de trabalho.

Ao fim de algum tempo achei que o assunto já tinha ido longe de mais e que tinha que tomar uma atitude, então decidi falar com ele dizendo-lhe que, ou ele parava com os abusos, ou eu teria de tomar uma atitude. Estava a obrigar-me de certa maneira a rescindir o meu contrato, o que não era justo pois só queria trabalhar em paz e sossego e gostava que tivesse respeito por mim, da mesma maneira que ele gostaria que tivessem pela esposa dele. Disse-lhe que ao ser obrigada a rescindir o meu contrato iria alegar justa causa, contando à esposa e participando à policia o assédio sexual de que estava a ser vítima. Foi uma maneira que encontrei para resolver a situação.

Passado quase um ano, saí e fui trabalhar para o Hotel Malhoa, onde estive três anos, a desempenhar funções de administrativa; aqui tive de aprender muita coisa nova, pois tinha de tratar de toda a facturação de clientes e de fornecedores, para ser entregue ao contabilista da empresa, fazer a caixa diariamente, os depósitos bancários, controlar o economato fazendo as encomendas dos mais variados produtos tais como produtos de limpeza, bebidas para os mini-bares dos quartos, encomendar pão, croissants, manteigas, doces, frutas, etc, para os pequenos almoços; tudo isto com a colaboração da chefe de piso.

Nesta altura, decidi regressar à escola e estudar outra vez à noite, num sistema de Unidades Capitalizáveis, só que mais uma vez a meio desisti. É que trabalhar, ser dona de casa e estudar não é nada fácil e o facto de estar sozinha, com o marido longe e de ter um filho pequeno, era muito complicado.

Ao fim dos três anos no Hotel Malhoa, terminou o meu contrato e como financeiramente não andavam bem, não mo renovaram.

Mais uma vez… estava sem emprego e desmotivada, pois pensava; agora sem estudos e com um curriculum pobre o que vou fazer? … só que a sorte bateu-me à porta e arranjei um novo trabalho.

Vida escolar - parte I


Vivi nesta fazenda com os meus pais e irmão até à altura de irmos para a escola, tinha então 6 anos. O meu pai pediu transferência para outra fazenda, a Kussava, também ela de gado, a 6 Km de Nova Lisboa.


Aqui iniciei uma nova fase da minha vida, um pouco complicada, pois nã

o estava habituada à vida de uma cidade, só lá ia uma vez por mês, dormia uma noite num hotel e regressava à fazenda.


Já não ia a caçadas, nem para os kimbos brincar com os “ pretinhos” ia para escola… aprender a ler e a escrever. Mas como em tudo na minha vida, depressa me habituei.


E assim vivi em Angola até Agosto de 1975, ia a caminho dos 9 anos, quando
aquela horrível guerra nos obrigou a vir para Portugal. Deixei tudo para trás, só veio comigo um pequeno saquinho com as minhas recordações. Mas como alguém disse….

Quem conhece estes lugares, reconhecerá de imediato a sua terra vermelha, os seus céus de um azul incrível, pincelado de nuvens brancas em forma de cúmulos, cúmulos-nimbos… (não vou enumerar todos os tipos… conhecem-nas de cor quem por lá passa ou passou…) … ou, então, apresentam-se num cinza quase negro e quase sempre acompanhadas de raios e coriscos, ameaçando a chuva que vai cair, e que logo cai, e logo após – tão depressa!... -, Aliviando para cinza claro e rapidamente também temos de volta o sol esplendoroso, brilhando no céu que voltou a ser azul!!!...
… e sente-se o cheiro quente da terra vermelha molhada….Recordação gravada no nosso coração… na nossa alma…


Tenho um orgulho enorme nos meus pais, pois como podem imaginar não é fácil começar uma vida nova noutro país, do zero e com três filhos pequenos.

Hoje com 41 anos, relembro com saudade esses tempos, e tenho pena, pois era um pais lindo e com uma riqueza sem fim.

Enfim, continuando a minha história... quando cheguei a Portugal fui viver para o Porto, para casa de uma irmã da minha mãe. Ficámos no Porto 8 meses. Não foi fácil acostumar-me mais uma vez, pois era tudo diferente, até o clima. Na escola, os outros meninos gozavam comigo e chamavam-me retornada, diziam que tinhamos vindo para cá para roubar o que era deles, coisas que provavelmente ouviam dos pais; as pessoas eram diferentes, os costumes eram outros, tudo para mim era diferente.

Havia respeito pelo próximo e uma grande troca de experiências. Para se poder viver em sociedade há que ter um código de ética e moral, ou seja normas que regem a nossa sociedade prevendo também que quando esses valores não são cumpridos haja uma punição exemplar de acordo com toda a sociedade. Uma sociedade é formada pela família, pelo próximo, pelo amigo, pelo vizinho, pelo colega profissional.

Há quem diga que os brancos (os patrões) abusavam dos pretos (os criados), não digo que não houvesse quem o fizesse mas em termos de prestação de serviço, todos tinham respeito pelo próximo, fosse branco ou preto, mostravam disponibilidade para ensinar e aprender e demonstravam um profissionalismo invejável. Não havia ninguém que se sentisse inferior a outro, quer seja pela categoria profissional quer seja pelas origens ou pela cor da pele, pelos menos onde eu vivi fui educada pelos meus pais a ser assim.

Mas nem tudo foi mau, adorei a Televisão que nunca tinha visto… lá não havia. Mas entretanto o meu pai foi colocado no Alentejo, em Avis, entrou para o Estado, pois em Angola tirou o Curso de Regente Agrícola, e mais uma vez mudei de lugar.

De Avis também guardo boas recordações; fui para a escola, para a 4ª classe; a vila era pequena, todos se conheciam. Havia uma barragem perto onde íamos no Verão tomar banho e praticar desportos náuticos.

Gostava muito de praticar squif e houve um ano em que fui campeã. Nas férias escolares fui trabalhar a ceifar, uma coisa que não é nada fácil, pois o calor é enorme e pegar numa foice e cortar o trigo tem a sua arte; mas lá me ajeitei durante uns tempos. Ceifava o trigo e juntava em medas para serem atadas pelos homens e carregadas nas camionetas. Foi engraçado.

Com 11 anos vim morar para as Caldas da Rainha, onde continuei a estudar; já estava no 1º ciclo, mas aqui já era uma adolescente, gostava de sair com as amigas, de festas, de discotecas, de namorar, de tudo o que uma adolescente faz. Estudei até ao 7º ano, mas depois resolvi que queria trabalhar, apesar dos esforços dos meus pais para evitarem que fizesse uma asneira, (da qual mais tarde me arrependi … e muito), levei a minha avante… e fui procurar trabalho, pensando eu ser já uma pessoa adulta.

Depressa me apercebi que a vida dos adultos afinal não era fácil, fui para a apanha da fruta durante uns tempos, tinha que trepar às árvores e encher os baldes com fruta, neste caso de maçãs para serem despejadas nos palotes, mas foi um trabalho sazonal.

Entre à noite, no ensino normal; arranjei um trabalho de dia numa mercearia pequena de bairro, onde atendia os clientes, repunha a mercadoria nas prateleiras, fazia a limpeza, um pouco de tudo...

Até que um dia conheci o que é hoje o meu marido, Angolano também, que tinha vindo às Caldas fazer o Curso de Sargentos para ser militar de carreira.

Namorámos 3 anos e resolvemos casar…foi um casamento simples só com família mais chegada; não casei nas Caldas, fui casar em Santiago do Cacém que é a terra dos pais do meu marido. Aqui começou mais uma nova etapa da minha vida, já não era aquela adolescente inconsciente, agora era uma mulher casada e com maiores responsabilidades.

Tomei conhecimento desde logo de uma vida a dois, que não seria difícil se partíssemos de um princípio que seria existir entre nós o respeito mútuo, que evitaríamos sempre aquilo que ouvíamos e líamos em relação aos outros casais como violência, adultério, etc.

fotografias Angola- História de vida III











Por ocasião do 30º aniversário da Declaração de Independência de Angola...
Afastei-me de Angola com dor-dor, dor-revolta, dor-incredulidade, dor-muita saudade...

Foram os tempos de paixões políticas exacerbadas, em que motivos sem motivo colocavam gentes, até então cordatas, em campos opostos, com consequências para além do imaginado. Havia a expectativa de um regresso breve...O tempo foi passando, a esperança do regresso se desvanecendo... A vida é um pouco – ou muito – como um mar imenso que, ao alcançar terra, se contorce, até que, açoitando violentamente a areia da orla, avança sobre ela, borbulhando… cada vez menos, até que, quase água límpida (mas salgada como as lágrimas), quase absorvida por essa areia, num movimento como de defesa – ou de revolta – rapidamente recua, para formar nova e grande onda, que também se abaterá sobre a areia. São lutas, vitórias, perdas, esperanças, desesperanças, começos, tropeços, recomeços... Deveres nos chamam, deveres nos pegam desprevenidos, despreparados... O tempo corre... Não que Angola tenha sido esquecida, porém o dia-a-dia não se apieda. Mata-se a saudade de maneiras variadas: prepara-se a muamba (substitui-se a matira pela beringela)... um calulu (usa-se bacalhau em vez do saboroso peixe seco... arranjar-se rama de batata doce é uma luta!)... assam-se maçarocas, batata doce... folheia-se o álbum dos postais, das fotos que começam a perder a cor... guardam-se na memória as cores, os cheiros, os sons... Chorei a partida por morte violenta dos meus Tios, que permaneceram em Angola, mas não deixei de amar os da minha Terra. O Povo não tem culpa dos desvarios de uns poucos…A construção de um sítio sobre Angola, na Internet, trouxe até mim novas e velhas amizades. Algumas concederam-me o privilégio de colaborar naquele trabalho, muitos incentivavam-me a que prosseguisse... Nas lutas que travava... Uma delas – sabia de antemão – não seria ganha e teria um dia o seu fim: a Mãe Lola partiu... Tenho a certeza de que me ofereceu a oportunidade de, se possível fosse, rever a minha Terra Natal.E aconteceu a oferta de trabalho em Luanda – mais um desafio.
Em tom jocoso, costumo afirmar que, entrar num avião é para mim o mesmo que apanhar um autocarro... Apanhei o “autocarro” TAAG DT 651 e dirigi-me à capital angolana...Interrogava-me sobre o que seria regressar a casa ao fim de tão longa ausência. O nervosismo dos preparativos foi dando lugar a um sentimento de calma, da consciência da decisão tomada, embora conhecedora de que continha também uma dose de aventura...

“Seriam os relatos que, ao longo das décadas, me foram sendo feitos, suficientes para preparar o meu espírito, os olhos para a visão das mudanças?... dos hábitos, da degradação das cidades, consequência da guerra de tantas décadas, do despreparo de duas gerações com referências mínimas, de valores enviesados... da corrupção óbvia e por todos comentada?” Com maior ou menor grau de conhecimento da realidade de hoje, sabe-se que Luanda sofreu, durante os anos de guerra, um enorme inchaço, que a desfigurou.
O restante do país também sofreu – muito!

História de vida (II)


Quatro anos depois no dia 3 de Novembro de 1965, à 1,00h da manhã, em Nova Lisboa,




nasceu uma menina gordinha que pesava quatro Kg. Deram-me o nome de Eugénia.

Dias depois do meu nascimento, regressámos ao Cuito, a uma fazenda de gado no meio do mato, a 300 Km de Nova Lisboa, onde os meus pais moravam.

Não era a primeira filha deles, pois um ano e meio antes tinham tido um rapaz, assim como sete anos depois tiverem outro, mas esta história não é a deles, mas sim a minha.

Vivia feliz pois Angola era um país lindo. Devido à existência de várias tribos falavam-se vários dialectos tais como o Kimbundo, o Umbundo, o Kioco, entre outros, mas como é evidente a língua oficial é o Português. Devido à orografia, o clima era diversificado, desde o tropical ao temperado, como por exemplo nos planaltos de Huila e do Huambo, onde se produziam as mesmas culturas que se produzem cá, pois as terras eram muito férteis.

De notar que a fazenda onde vivi ficava no ponto mais alto de Angola, com 2624 m; era mais alto que a Serra da Estrela, onde também se faziam sentir temperaturas muito baixas nos meses de Junho e Julho. Vivi também junto à fronteira com a Namíbia, onde me lembro de ter visto animais de grande porte como elefantes, leões, búfalos, etc.

O ambiente era puro e sustentável, a própria natureza fazia a sua renovação. Era um país que se podia dizer que ninguém morreria de fome, porque tinha uma riqueza natural e que parecia inesgotável. Mas tudo era lindo naquele país, desde as praias até às montanhas com quedas de águas fabulosas passando pelo clima.

Lembro-me também de ter todo o espaço para brincar, correr, saltar, conviver com animais. Quando o meu pai fazia caçadas costumava levar-me com ele no jeep. Tinha um bambi como animal de estimação, e um cão de que eu não gostava muito por ser mau, quando o soltavam ia ao galinheiro e matava as galinhas, não havia animal que entrasse na fazenda e saísse de lá com vida… A única pessoa que o controlava era o nosso cozinheiro Inácio.

Sempre que podia ia aos kimbos ou sanzalas,

(casas dos pretos) brincar com os pretinhos, visto que eu era a única menina branca e não tinha mais ninguém, para além do meu irmão.

Adorava andar à chuva; é que quando chovia fazia calor ao mesmo tempo. Era tanta chuva a que as estradas ficavam interrompidas e as pontes ruíam; havia alturas em que ficávamos completamente isolados de tudo. Passava o tempo a pescar, a nadar nos rios, a andar de mota com a minha mãe, a andar de jeep. Enfim coisas de crianças.

Não tínhamos médicos nem hospitais por perto a não ser em Nova Lisboa, a 300 km dali, então quando os pretinhos ficavam doentes, ou eram mordidos por uma cobra ou tinham feridas que infectavam, eram os meus pais que os ajudavam, pois tínhamos sempre vários medicamentos, inclusive vacinas, e eu gostava de ficar a ver a minha mãe a tratar deles; dava-lhes a mão para não terem medo, nem chorarem. Os partos também eram a minha mãe quem os fazia. Era frequente virem pretos de várias aldeias à nossa fazenda procurar ajuda. Não tinham informação sobre cuidados básicos de saúde nem recursos para se deslocarem a um médico, pois só nas cidades é que havia essa assistência e a cidade mais próxima ficava a 300 Km. Até a mim quando me acontecia alguma coisa, a me magoava ou ficava doente, os primeiros cuidados eram feitos pela minha mãe, com medicamentos que tinha sempre em casa e só se a situação piora-se é que ia á cidade ao médico.

Uma vez por mês iamos à cidade, a Nova Lisboa, fazer as compras do mês, de comida, medicamentos, roupas, enfim vária coisas, e nessa altura aproveitavamos para passear e ir ao cinema, o que para mim era uma alegria.

Enfim, são pequenas lembranças, visto ter pouca idade.

Para além de ter uma infância feliz de que me lembro perfeitamente, também me lembro um pouco da riqueza que havia naquele país, em termos de cultura e de costumes, devido à grande variedade de etnias existentes.

Havia respeito pelo próximo e uma grande troca de experiências. Para se poder viver em sociedade há que ter um código de ética e moral, ou seja normas que regem a nossa sociedade prevendo também que quando esses valores não são cumpridos haja uma punição exemplar de acordo com toda a sociedade. Uma sociedade é formada pela família, pelo próximo, pelo amigo, pelo vizinho, pelo colega profissional.

Há quem diga que os brancos (os patrões) abusavam dos pretos (os criados), não digo que não houvesse quem o fizesse mas em termos de prestação de serviço, todos tinham respeito pelo próximo, fosse branco ou preto, mostravam disponibilidade para ensinar e aprender e demonstravam um profissionalismo invejável. Não havia ninguém que se sentisse inferior a outro, quer seja pela categoria profissional quer seja pelas origens ou pela cor da pele, pelos menos onde eu vivi fui educada pelos meus pais a ser assim. Como não havia televisão, as pessoas juntavam-se muito e faziam grandes festas, grandes caçadas, pescarias no rio Cunene onde o peixe abundava, e tudo servia para um bom convívio.

Os pretos também tinham as suas festas; os ximganjes, por exemplo eram pretos que se vestiam com trajes feitos de ráfia, com missangas, besuntavam-se com óleos que por vezes cheiravam mal e dançavam à volta das fogueiras.

Gostava de retratar um pouco com algumas fotografias para terem uma pequena ideia do que estou a dizer.

História de vida (I)

Como todas as histórias de vida, esta também tem um princípio, meio e….E a minha começa em 1963, numa cidade do norte de Portugal, em Chaves, onde vivia uma moça com 20 anos, bonita, alegre e simpática que se chamava Adélia.


Adélia trabalhava numas termas de águas sulfurosas que eram muito visitadas por pessoas com problemas de saúde. A sua família era grande e com poucos recursos, tinha 7 irmãos e duas irmãs, todos pequenos; como ela era a mais velha, muito cedo teve de deixar a escola e começar a trabalhar. Mas não deixava de ser uma moça feliz…

Entretanto, noutro continente, mais precisamente em Angola, numa pequena aldeia de nome Chibia, vivia

Eugénio, um moço de 26 anos também ele alegre, simpático e bonito que vivia com os seus 8 irmão, pois muito cedo, apenas com 11 anos, perdeu os pais. A vida dele não corria nada mal… trabalhava numa empresa privada, era gestor de uma grande herdade de gado charolês e ganhava, para a época, um bom ordenado.

Nesse ano de 1963 decidiu vir a Portugal, de férias, durante um mês. De todos as terras lindas de Portugal, Eugénio escolheu passar as férias no Norte do país, em Chaves; alugou um quarto numa pensão e um carro, e foi conhecer a cidade. Ao fim de uma semana de estada, teve um problema de fígado e recomendaram-lhe as tais águas sulfurosas...

Foi aí que ele e Adélia se conheceram e se apaixonaram, de tal forma que ele pediu-a em casamento e ela aceitou. Nesse mês que esteve em Portugal, casaram e foram viver para Angola.

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Felizmente nasci em 1965 e fui educada segundo determinados princípios que regiam a sociedade onde nem tudo o que se pensava se podia fazer ou dizer, ou seja, vivia-se debaixo de um regime “Salazarista”.

Em 25 de Abril de 1974, deu-se uma revolução e aí as pessoas passaram a emitir as suas opiniões, podendo-se falar sem receio de retaliações ou castigos, enfim aconteceu a famosa “Liberdade de Expressão”. Determinados princípios éticos mantiveram-se tais como, a honra, a cooperação, o patriotismo, a participação, etc., embora, quanto a mim, outros sofressem pequenas alterações tais como a justiça, o civismo, a participação, o aceitar a autoridade, etc.

Há um princípio que, na minha opinião, foi mal interpretado por determinadas pessoas, que é a liberdade pois a nossa liberdade, só começa onde a dos outros acaba e esse ponto de equilíbrio é que é difícil para muitas acertarem, ou seja o respeito pelo nosso semelhante.Para se poder viver em sociedade há que ter um código de ética e moral, ou seja normas que regem a nossa sociedade prevendo também que quando esses valores não são cumpridos haja uma punição exemplar de acordo com toda a sociedade.

Uma sociedade é formada pela família, pelo próximo, pelo amigo, pelo vizinho, pelo colega profissional.Todos pertencemos a uma Pátria, que embora diferentes, há determinados valores que regem essas sociedades, Pátrias, por exemplo, Portuguesa, Espanhola, Francesa ou Italiana.

Os valores éticos, culturais e até mesmo religiosos são iguais em qualquer parte do mundo.Estamos em 2008 e hoje se conseguimos respeitar o nosso semelhante, quer particular quer profissionalmente, se conseguirmos ser leais com o nosso próximo e com os nossos princípios, então conseguimos viver em harmonia com a sociedade.